Então é Natal

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Então é Natal

23 de dezembro de 2017 Confissões empreendedorismo propósito 0

Foto: o Papai Noel de antigamente, que não é o vermelho criado pela Coca-cola.

 

Hoje é dia em que todos correm para o shopping, em busca dos últimos presentes. Mas eu, não.

Sei que o que vou dizer pode soar contraditório pra quem trabalha em propaganda e com a indústria da moda, só que eu realmente tenho ficado satisfeita em ver minhas roupas se desgastarem com o tempo e o uso.

Como provavelmente minha falecida avó fazia, eu vou costurando e consertando cada buraquinho que surge nas peças. Ultimamente criei intimidade com a loja de armarinhos, do sapateiro e da costureira. Sinto-me participante não só de uma tradição familiar, mas de um costume de antigamente, que eu renovo e mantenho viva.

Pela primeira vez, precisei botar fora um sapato, pois fiz um buraco no solado de tanto usá-lo. No lugar, coloquei outro exatamente igual.

Se eu tenho uma festa pra ir ou algo do gênero, muitas vezes, não compro nada novo, mas peço emprestado. Um jeito sustentável de viver, em que eu aprofundo as relações e busco cada vez menos desperdício. Acredito que esse novo jeito de levar a vida, me ajuda inclusive a aceitar meu próprio desgaste. Eu envelheço; neste ano fiz 40, e está tudo bem.

Assim têm sido todas as minhas aquisições. Uma peça de roupa só entra pra ficar no lugar de outra indispensável. E me dá uma sensação boa ver que os tempos de shopping terapia ficaram para trás. Longe aqueles momentos em que eu precisava comprar para preencher um vazio interno que não sabia definir a razão.

Tenho poucas e boas roupas, e contemplá-las me faz pensar que não sou mais escrava dos meus bens. Com dívidas intermináveis para pagar o meu ter, que sobrepunha o ser. Meu dinheiro é destinado a aquisições mais importantes para o meu trabalho como um computador ou celular; sem a paranoia de trocar a cada novo modelo lançado.

Uma vida sem excessos, que busca cada vez mais só o essencial. Até mesmo na alimentação e produtos para a casa, minha meta é não desperdiçar ou gastar com supérfluos. Se deixo algum produto estragar e preciso descartá-lo, sinto-me como se precisasse fazer uma investigação interna sobre como deixei isso acontecer.

É autoconhecimento. Perceber que eu não preciso de tanto pra viver. Foi motivada pela falta de grana, quando fui demitida há longos três anos e optei por empreender. No entanto, eu percebo que minha necessidade de consumismo diminui na proporção em que me dedico ao que realmente importa pra mim, que são ter tempo pra viver, ver o sol, encontrar amigos, conhecer pessoas novas, mobilidade para trabalhar de qualquer lugar (sem a prisão das nove às seis; muitas vezes, mais), atividades que o empreendedorismo me proporciona; estudar, dar aulas e correr atrás do meu sonho do mestrado, que neste ano eu finalmente consegui concretizar (engraçado pensar que eu escolhi exatamente estudar na linha de pesquisa ligada ao consumo).

Antes, eu trabalhava tanto, que eu nem tinha tempo pra pensar direito sobre mim, o que me fazia feliz, ou correr atrás do que realmente importava. Por isso, eu admiro quem se adapta a esse nosso modelo de trabalho, que eu pessoalmente acho doente. Pelo menos pra mim, o consumismo, hoje vejo, está atrelado a esse modus vivendi. Você trabalha muito e gasta o que ganha como forma de compensação; em contrapartida, precisa trabalhar cada vez mais para conseguir pagar as dívidas advindas. Um ciclo que só se perpetua. Não julgo o shopping terapia, pelo contrário, eu entendo perfeitamente. I’ve been there.

E agora é Natal. Não, eu não compro mais roupas novas para passar a data. E não faço parte das estatísticas das compras. Eu me volto mais para o significado da data que é estar presente e disponível, e agradecer à minha família e amigos pelo ano que passou. Cultivar as relações, dar amor e receber. Afinal, eu não costumo me lembrar dos presentes que me deram, mas se uma pessoa estava ali quando eu mais precisava.

Feliz Natal, gente. E que venha 2018! Com mais presença e menos presentes.

 

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